Vale do Pati dia 1 – 13 km do Morro do Pai Inácio ao Vale do Capão

Vale do Pati dia 1 – 13 km do Morro do Pai Inácio ao Vale do Capão

Depois de um fim de semana descansando em Lençóis, para entrar no clima da Chapada Diamantina, saímos segunda-feira por volta das 8h30, de van, rumo ao Morro do Pai Inácio, onde se iniciou nossa jornada.

Classificada como fácil, a trilha deste primeiro dia foi uma espécie de aquecimento para o que viria depois: quase toda plana, com uma ou outra subida bastante leve (nada além de 100/150 metros de altura). Os bastões de trekking praticamente não eram necessários, mas já que estavam ali…

O principal problema foi a falta de sombras e o sol escaldante que nos acompanhou por 13 quilômetros, uma distância considerável para se iniciar um trekking, né?

 

Os Três Irmãos, vistos no início da trilha.

Durante cerca de três horas e meia contornamos os morros chamados Três Irmãos até chegarmos  a um recanto conhecido por Águas Claras – uma queda d’água com um poço para mergulho, cercada da vegetação do cerrado. Embora seja “modesta” se comparada às famosas cachoeiras da Chapada Diamantina (a da Fumaça ou das Encantadas, por exemplo), nós festejamos a queda d’água como um verdadeiro oasis.

Águas Claras: oasis para os caminhantes.

Ficamos por ali cerca de 1 hora, tempo suficiente para descansar e fazer o lanche oferecido na trilha: sanduíche natural, suco de maracujá, banana e maça e bolo de chocolate.

A partir das Águas Claras, seguimos por uma trilha um pouco mais irregular, mas sempre com a mesma vegetação de serrado ou caatinga, com capins de todo tipo, flores inusitadas, cogumelos gigantes, cactos, claro, e  arbustos.

Chegamos no início do Vale do Capão por volta de 17 horas, onde uma van nos levou para a vila, onde tivemos a segunda recompensa do dia: uma cerveja gelada e um pastel de palmito de jaca, que não passa da fruta verde cortada em tiras bem fininhas. Ainda bem que o gosto do tal palmito de jaca nada tem a ver com a fruta doce e enjoativa que eu detesto. Parece mesmo pupunha meio verde.

Da vila, seguimos para a Pousada do Capão, a terceira e melhor recompensa do dia: quartos confortáveis e aconchegantes, banho quentinho e funcionários super simpáticos. Sem falar na massagem ayuvérdica feita em uma espécie de cabana envidraçada e que preparou o corpo para a barra pesada que viria no dia seguinte: 22 km morro acima e abaixo até o Vale do Pati propriamente dito.

 

Mais detalhes sobre a viagem no post anterior (clique aqui). E aguarde pelas peripécia das próximos dias.

Cogumelos gigantes aparecem de quando em quando no meio dos arbustos: venenoso?

 

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Vale do Pati, o grande desafio da Chapada Diamantina

Vale do Pati, o grande desafio da Chapada Diamantina

Elogios é o que não faltam: o melhor trekking do Brasil; o Caminho de Santiago brasileiro; e por aí vai. Como não fiz todos os trekkings brasileiros nem o Caminho de Santiago, não me arrisco a fazer comparações. O que posso dizer é que o Vale do Pati, na Chapada Diamantina, é uma caminhada e tanto. Primeiro, a paisagem belíssima e silenciosa dos paredões de rochas, vales arborizados e catingas. E depois pelo esforço que esta paisagem exige para ser desfrutada. É preciso muita disposição, um preparo físico razoável e desprendimento para subir e descer quilômetros sem fim de rochas e entrar em contato com a vida de moradores que vivem isolados, quase perdidos no tempo.

Por do sol no Vale do Pati

Dependendo do roteiro escolhido, o Vale do Pati pode ser feito em três, quatro ou cinco dias – há saídas a partir do município de Guiné, do Vale do Capão (município de Palmeiras) ou de Lençóis, passando pelo Capão. E mesmo dentro destes roteiros é possível, em um dos dias, escolher qual paredão de rochas subir ou em quais cachoeiras/poços vamos tomar banho.

Vista a partir do Morro do Castelo, 450 metros acima do Vale do Pati

Junto com uma amiga, optamos por fazer o roteiro a partir de Lençóis, com cerca de 70 km em 5 dias de caminhada. E certas de que tiraríamos tudo de letra, ainda incluímos um sexto dia para visitar a cachoeira Encantadas, com mais 10 km saltando pedras no leito de um rio seco.

Trilha entre o Morro do Pai Inácio (na saída de Lençóis) e o Vale do Capão

Neste roteiro, dormimos a primeira e a última noite em pousadas (Vale do Capão e Mucugê) e as outras três em casas de moradores ao longo do Vale do Pati.  Um contraste enorme entre camas macias e banhos quentes versus piso de chão batido, banho gelado e camas precárias de outro. Com um ponto favorável aos moradores: um banquete de até 10 pratos com um tempero caseiro inigualável no jantar. Algo essencial depois de até 10 horas de caminhada embaixo de sol e ainda por cima carregando uma mochila, mesmo que pequena, nas costas.

“Hospedaria” de dona Linda, antiga moradora do Vale do Pati, onde dormimos na última noite da trilha.

Organização da viagem

Como não queríamos carregar bagagem por 70 km morro acima e abaixo nem ter o stress de  nos perdermos no meio do caminho – as trilhas não são bem demarcadas -, optamos por fazer todo o trekking com a agência Venturas, que minha amiga já conhecia de uma viagem anterior à Chapada Diamantina. Além de um carregador levar uma bag com roupas, nécessaire e outros artigos básicos (25 litros), o guia transporta o lanche das trilhas – por sinal, muito saudável, com sanduíche integral, frutas, bolos deliciosos, castanhas, chocolate e suco.

A maior parte dos guias que trabalham para as agência é autônoma. Então, é possível contratar direto e reservar as pousadas separadamente – os próprios guias acertam com os moradores. E, claro, pode se pegar um mapa do Vale do Pati com as trilhas demarcadas (vende em Lençóis) e fazer tudo sozinho, pedindo informação para quem encontra pelo caminho – quando encontra, claro, pois em uma das trilhas não cruzamos ninguém.

Nosso guia foi Harebol, veterano da Chapada Diamantina e do Vale do Pati. A tranquilidade e a paciência em pessoa, muito bem informado sobre a vegetação local e um grande companheiro de viagem – contatos a partir do Facebook.

Harebol, no alto das Gerais, pouco antes de iniciarmos a descida para o Vale do Pati

Nos posts seguintes vou contar o roteiro dia a dia.

Enquanto isso, se sua intenção for ir ao Vale do Pati, prepare-se desde já:

Condicionamento físico

Não é preciso ser atleta nem ter 20 anos, mas é necessário fôlego e músculos para subir rochas de até 450 metros de altura, por trilhas pedregosas. Haja quadríceps, panturrilhas, glúteos e joelhos. Além disso, caminha-se sob sol forte durante várias horas, o que aumenta o cansaço.

Meu conselho: suba muita escada (ou rampa ou morro) nas duas ou três semanas antes da viagem, se possível com uma mochila nas costas. Eu descia e subia 2 vezes os 15 andares do meu prédio, umas 3 vezes por semana, além de outras 3 vezes de musculação (meu treino normal).

Olha ai o que você vai subir:

O que levar

O mínimo possível, principalmente se você for carregar tudo. E mesmo se tiver o carregador, em uma bag de 25 litros (carregador) e na mochila de ataque que você vai levar não cabe quase nada. Leve em conta que à noite é possível lavar camisetas e calça dry fit nas pousadas ou nas casas de moradores, mas as meias custam mais a secar. Dá para levar uma mala maior e deixar em Lençóis para pegar na volta, transportando para o trekking apenas o essencial.

Eu segui a recomendação da agência e funcionou bem:

- 1 bota de trekking impermeável já usada (não vale ter usado uma vez na cidade, precisa estar mesmo laceada para aguentar o tranco) s- 5 camisetas “dry fit” (1 para cada dia)

- 5 pares de meia  próprias para trekking (leves, mas tipo dry fit)

- 2 bermudas leves e de secagem rápida (suplex, tactel)

- 1 calça leve e de secagem rápida (suplex, tactel). A calça-bermuda é uma ótima opção.

- Chinelo para descansar os pés à noite.

- 1 kit de roupa para dormir: 1 agasalho para frio, 1 calça.

- capa de chuva

- Nécessaire com itens de higiene pessoal (lembre-se que estes produtos pesam e que não se precisa nada além de hidrante de corpo e rosto, desodorante, sabonete, xampu, condicionador, escova ou pente, escova e creme dental e lixa de unha)

- Bastão de trekking (para mim é item essencial, principalmente nas descidas. 1 já resolve, mas eu prefiro 2 para os terrenos mais íngremes).

- Lanterna, de preferência de cabeça (levei a comum e fez falta no dia em que a caminhada pegou o início da noite)

Roupa de banho (biquíni, maiô, sunga)

- Capa de chuva

- Protetor solar (Fator 30 ou +) e protetor labial (o sol é inclemente na Chapada)

- Repelente de insetos

- Boné ou chapéu

- Cantil térmico (pode ser comum, mas a água esquenta muito rápido no calor da Chapada)

- Canivete (opcional)

- 1 toalha pequena ou canga

- 1 agasalho

- Tensores para joelhos e tornozelos (essenciais para quem, como eu, tem problema de joelho na hora de descer pirambeiras)

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Vá à Ilha Grande! Mas vá antes que acabe.

Vá à Ilha Grande! Mas vá antes que acabe.

Recém eleita uma das 10 melhores praias do mundo no site especializado Trip Advisor, Lopes Mendes é realmente um paraíso ainda preservado da Ilha Grande, com suas areias brancas e finas e ondas perfeitas. Digo “ainda preservado” porque a popularização da ilha como destino turístico, o descaso da Prefeitura de Angra dos Reis, dos hoteleiros e donos de restaurantes e a falta de educação ambiental dos moradores já deixa seu rastro. Coleta de lixo precária – em dezembro simplesmente não havia -, congestionamento de barcos e pessoas nas pequenas enseadas em que é possível praticar snorkel, afugentando os peixe, falta de água. Sem contar os preços por demais salgados cobrados pelos restaurantes à beira-mar na Vila do Abraão em troca de uma comida pra lá de mais ou menos.

Lopes Mendes, uma das 10 melhores praias do mundo, segundo classificação do site Trip Advisor

Isso não quer dizer que não vale a pena ir lá. Muito pelo contrário. Um dos destinos preferidos dos estrangeiros que vêm ao Brasil em busca de águas calmas e quentinhas, tranquilidade, mergulho e trekking, Ilha Grande merece ser visitada sim, mas fora da alta temporada e dos feriadões. Pelo menos para quem prefere praias e trilhas mais vazias, preços mais em conta e menos sujeira. Aí dá para lagartear à beira-mar, na sombra das árvores (nem precisa guarda-sol) ou curtir o canto dos pássaros em trilhas semi-desertas na exuberante Serra do Mar.

Porto da Vila do Abraão no final da tarde: cenário perfeito para uma caipirinha.

As praias mais atraentes são, claro, as que ficam mais distantes da Vila do Abraão, onde só se vai de barco ou depois de alguns quilômetros de caminhada na mata. Há praia para todos os gostos, das ondas de surf de Lopes Mendes às águas calmas de Palmas. Em algumas delas há restrição, como a Praia de Dois Rios, onde ficava o antigo presídio e só se pode ir com autorização e permanecer até as 17 horas. Já a Praia dos Aventureiros, onde é possível acampar ou se hospedar em casa de moradores, tem limite de 560 pessoas por dia e também necessita autorização.

Praia de Palmas, a 45 minutos de barco da Vila do Abraão e de onde parte uma trilha de 20 minutos até Lopes Mendes. Tem uma pousada e boteco.

Mas praias e atividades é o que não falta, para todos os bolsos. Afinal, são 106 praias e 16  trilhas oficiais, por onde é possível até dar a volta à ilha. Há caminhadas para quem tem e quem não tem condicionamento físico. Para quem não é muito chegado a trilhas, o circuito do Abraão dá conta do recado – 1 hora de caminhada em terreno plano, na entrada do Parque Nacional, com direito a banho de queda d’água (um poço, na verdade) e de mar depois de um passeio na mata. A trilha até Dois Rios, partindo do Abraão, leva 5 horas ida e volta, com 7 km de subidas e descidas bem íngremes. Para escolher mum caminho, basta olhar o mapa da ilha e fazer seu roteiro.

Trekking na mata: perca a preguiça, pois não vai se arrepender.

Também dá para conhecer a ilha sem fazer quase nenhum esforço. Um dos passeios de barco mais tradicionais é a “Volta à Ilha”. Uma lancha para cerca de 12 passageiros percorre as principais praias, com paradas para snorkel em enseadas escondidas e almoço no outro lado da ilha. Já Lopes Mendes exige uma caminhada de 20 minutos, em terreno plano, desde a praia de Palmas, pois os barcos não chegam até lá. Também é possível, claro, alugar barco para grupos fechados, bem como fazer mergulho sem precisar ver o pé de ninguém.

Caxadaço, um dos pontos de parada dos barcos para snorkel

Embora tenha ido para fazer trekking, meu sonho foi abortado no primeiro dia, quando decidi fazer a volta à ilha para ter uma noção geral de onde queria ir depois. Ao percorrer uma pequena trilha para subir em uma pedra, dei uma topada em uma raiz de árvore. Resultado: meu dedo mindinho ficou inchado e roxo, não consegui calçar as botas de trekking e tive de tomar anti-inflamatório, depois de constatar, no precário posto de saúde, que nada tinha quebrado. Com isso, fiz apenas pequenos circuitos em torno da vila e a caminhada de Palmas a Lopes Mendes, que permitem ir de sandália havaiana.

Com ou sem trekking, os 6 dias foram maravilhosos. Com uma caminhada mínima dá para achar um cantinho de praia quase deserto. Levava meu lanche (na maioria das praias não há ambulantes) e água e passava o dia. Não fiz mergulho e confesso que fiquei frustrada com o snorkel, pois os locais onde os barcos param estão tão congestionados que quase não há peixes e as águas ficam meio turvas, de tantos pés tocando o fundo do mar. Nenhum destes “detalhes” chegou a causar stress. Aliás, é impossível ter stress na Ilha Grande. Em outro post vou dar a dica de um restaurante muito bom e da pousada em que fiquei.

Praias e rotas de Ilha Grande

Pretendo voltar muitas vezes, pois acho que conheci apenas 10%. Por isso, meu conselho é:  não pense duas vezes, vá! Mas vá antes que acabe!

Serviço

Transporte - A ilha tem barcos e balsas diárias a partir de Angra dos Reis e de Mangaratiba. Informações no site www.ilhagrande.org. No mesmo endereço é possível ver a relação de praias e o que cada uma oferece.

Agências de viagem – Basta descer do barco no porto e se vê as placas das agências de turismo e suas ofertas, que também tomam algumas ruas perpendiculares à rua da praia. Minha sugestão é que se faça uma pesquisa in loco para ver a que mais agrada, preços etc. antes de fazer uma opção. No site Ecoviagens há uma lista de agências de Angra, para quem quiser agendar antes.

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El Chaltén, uma aventura na capital do trekking

El Chaltén, uma aventura na capital do trekking

Subir sozinha uma montanha de 700 metros de altura, 350 deles quase na vertical, nunca esteve no meu roll de interesses para viagens e diversão. A  crença de que me faltava preparo físico para subir e o medo da descida sempre me mantiveram longe deste tipo de programa. Isso até fazer o primeiro trekking em Ushuaia, no início de minha viagem à Patagônia em março do ano passado. A partir daí fui me enchendo de coragem e em apenas uma semana já me sentia quase uma experimentada praticante. Isso, e mais o incentivo da dona da pousada em que me hospedei em El Chaltén, me empurraram para uma aventura rumo o Lago de Los Tres, o ponto mais alto a que se pode chegar  do Cerro Fitz Roy, o trekking mais estrelado da pequena cidade da Patagônia argentina.

Lago de Los Tres, no alto do Cerro Fitz Roy, o topo da aventura.

Foi difícil, quis desistir muitas vezes, o frio doía no rosto e o vento chegava a me balançar. Muitas vezes, tive de subir quase de joelhos pelo medo de cair por não ter onde me segurar, mesmo com um bastão de trekking como apoio. Em outras ocasiões, pedi ajuda para quem tinha mais desenvoltura e pernas mais longas do que as minhas para subir uma pedra alta. Mas a emoção de chegar lá em cima da montanha coberta de neve e ver que estava no topo, no lugar mais alto onde eu poderia chegar naquele momento e naquele lugar, foram indescritíveis. Ali, chorei de emoção, sentada atrás de uma pedra para o vento não me carregar, feliz pela vitória nunca planejada.

O Cerro Fitz Roy, encoberto pelas nuvens, visto do Lago de Los Tres

E também chorei de emoção, depois, ao voltar para a cidade, 9 horas depois de ter saído, com 25 km de caminhada nas pernas e a sensação de ter testado – e vencido – muitos limites – resistência física e medo, principalmente. Cheguei a descer alguns pedaços mais íngremes da montanha quase sentada, com um pouco de vergonha e dando passagem para os caminhantes mais rápidos. Mas no meu ritmo, cumpri a tarefa que me havia imposto. E só posso dizer uma coisa: foi maravilhoso!

Glaciar na trilha para o Fitz Roy

El Chaltén é uma vila encravada entre dois morros, com duas ruas cortadas por meia dúzia de travessas que vão de uma encosta a outra. É conhecida como a capital mundial do trekking. Ninguém vai até lá fazer outra coisa a não ser caminhar. E quem não quiser caminhar, que não vá, pois não há mais nada mesmo a fazer. Mas a cidade oferece caminhadas para todos os gostos e graus de disposição. Desde uma volta de 40 minutos para ver a cidade de cima até o trekking ao Fitz Roy. Entre as duas, há trilhas para cachoeiras ou para ver o Fitz Roy à distância, quando as nuvens assim o permitem. E o que é melhor, não é preciso de guia para fazer as trilhas – todas são demarcadas e têm muita gente circulando o dia todo. Mesmo no Fitz Roy, que tem grau de dificuldade alto, nunca se está sozinho.

El Chaltén, a capital do trekking

No caso da subida para o Fitz Roy, há dois caminhos possíveis: pega-se a trilha direto de El Chaltén e vai subindo até o acampamento Fitz Roy, a 400 metros de altitude e de onde se inicia a subida para o cerro – os tais 350 metros na vertical, por uma trilha de pedras. Como este é o mesmo caminho da volta, optei pela segunda alternativa. Pega-se uma van que serpenteia o morro e nos deixa do outro lado da cidade, a cerca de 100 metros de altitude. Embora a trilha que se pegue dali seja mais longa, é menos íngreme e permite a vista de um glaciar pequeno, incrustado entre dois morros. Com isso, acaba-se fazendo dois trekkings dentro de um, com paisagens mais diversificadas – todas maravilhosas, com imensos vales verdes, rios de pedras e vegetação variada.

Uma trilha repleta de emoções

Uma vila de mochileiros

Chega-se a El Chaltén de carro ou de ônibus (3 saídas por dia, cerca de R$ 70,00) a partir de El Calafate. São cerca de 3 horas de viagem. Muita gente vai apenas passar o dia, o suficiente para fazer dois trekkings – ver a cidade e a região do alto de um morro (30 minutos idade e volta) e visita à cachoeira mais próxima (2 horas ida e volta, mais ou menos, com parada para admirar a queda d’água).

Quase como uma cidade perdida no meio do nada, El Chaltén tem cerca de 500 habitantes e quatro vez mais de turistas. O movimento da rua, onde estão os restaurantes e cafés, espelha a característica de cidade do trekking. Ali não se vê bolsas, só mochilas. Nenhum sapato ou botinha, só bota de trekking. Casacos à prova d’água e corta-vento e capas de chuva para mochila são essenciais, principalmente para quem vai subir o Fitz Roy. Mesmo no verão, é frio nas montanhas. Tanto que em fevereiro já estava nevando em cima do Fitz Roy. E pode chover a  qualquer momento, mesmo que você saia da pousada com sol (coisa normal para quem mora em São Paulo). Em junho, a cidade “fecha” devido ao frio. Pousadas, restaurantes e lojas cerram as portas e só retornam em agosto ou setembro (é bom conferir antes de organizar a viagem).

Para os trekkings mais longos ou mais difíceis, recomenda-se usar pelo menos um bastão – dois é o ideal. Há uma loja de aluguel na rua principal de El Chaltén, que tem aqueles bastões reguláveis por 10 dólares o dia. A loja também vende a bons preços tudo o que você possa precisar para se sentir confortável – luvas, toucas, protetor de orelha, cachecol etc. – além das tradicionais lembrancinhas da cidade. Também na rua principal fica uma rotisserie que prepara box de lanche de vários tamanhos para as caminhadas, caso a pousada não ofereça. No box tem desde empanada até alfajor e chocolate.

Escolhi minha pousada em El Chaltén pelo Booking. Eu fiquei na Hosteria Koonek. Simples, mas com um bom banho quente, café da manhã farto e administrada pelos próprios donos, um casal de aposentados muito simpáticos e prestativos. tudo o que precisei saber e reservar, eles me indicaram – até massagista para o dia seguinte à subida ao Fitz Roy, quando eu me sentia como se um trator tivesse passado várias vezes em cima das minhas pernas.

 

El Chaltén e suas adoráveis trilhas

 

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Torres del Paine para caminhantes não ortodoxos

Torres del Paine para caminhantes não ortodoxos

Antes de qualquer coisa, preciso deixar claro aos leitores deste post: fui ao  Parque Torres del Paine, na Patagônia chilena, mas não fiz o curcuito W, talvez o trekking mais famoso das 3 Américas e, com certeza, o mais conhecido e desafiador da Patagônia. E mesmo sem ter passado 6 dias subindo e descendo as torres da cordilheira carregando uma enorme mochila e acampando, posso dizer que conheci e aproveitei muito os 3 dias que passei no parque.

 

Digo isso porque já recebi olhares enviesados dos caminhantes mais ortodoxos ou mochileiros radicais. E garanto a todos que não é nenhum pecado conhecer o parque de diferentes formas – em barco, em uma espécie de “park tour” ou caminhando por trilhas alternativas e mais acessíveis para aqueles que têm um condicionamento, digamos, um pouco menor. A beleza das torres da cordilheira Paine, das cachoeiras, dos glaciers e dos enormes blocos de gelos que deslizam pelas águas espelhadas dos lagos se oferece de forma democrática a todo e qualquer visitante.

 

Seguindo, em parte, dica de Ricardo Freire, do blog Viage na Viagem, optei por ir a Torres del Paine de ônibus direto de El Calafate, em vez de fazer o tradicional pit stop de uma noite em Puerto Natales, a cidade chilena mais próxima. Na verdade, o transporte direto não é feito por um ônibus de linha, mas sim por um tour de um dia no parque, oferecido apenas pela empresa Always Glacier, partindo 5h30 da manhã de El Calafate. Com a diferença que você pode ir na excursão, fazer o tour de um dia e ficar no parque por sua conta, retornando quantos dias depois quiser. A diferença de preço entre ir e voltar no mesmo dia e ir e voltar em um outro dia é de cerca de 100 dólares. Mas compensa se comparar com o custo de um hotel em Puerto Natales, por exemplo.

 

O mais recomendável, em minha opinião, porém, é alugar um carro e ter seu próprio meio de transporte independente dentro do parque, sem precisar depender de transfers. A estrada é de boa qualidade, com exceção de uma pequena parte mais precária, nas proximidades do parque. Mas 10 vezes melhores que nossas estradinhas vicinais Brasil a dentro.

 

Glaciar Grey

Seja de carro, de ônibus ou a pé pelo circuito W, Torres del Paine é um ponto de parada obrigatório na Patagônia. Deslumbramento igual só tive mesmo quando visitei a Polinésia Francesa e diante do Glacier Perito Moreno, que contei no post anterior.. O Glaciar Grey, embora mais baixo do que Perito Moreno, estende-se a perder de vista no fundo lago do mesmo nome. A viagem até ele é feita de barco, cerca de 1 hora a partir do Hotel Lago Grey. Mas também pode ser observado desde o Refúgio Grey, uma das hospedarias de apoio do enorme circuito W.

 

Vista do Glaciar Grey a partir do Hotel Lago Grey

Os blocos de gelo que se desprendem do glaciar ficam meses a flutuar no lago e são um espetáculo à parte e cotidiano para os hóspedes do Hotel Lago Grey, que podem vê-los das imensas janelas envidraçadas dos quartos, do bar, do restaurante, das varandas…..  Embora não seja o mais caro do parque, o Lago Grey é um hotel de nível (e preço, claro) superior, frequentado em sua maioria por europeus e americanos de meia idade ou aposentados.

 

Blocos de gelo flutuando no Lago Grey

De vez em quanto, baixam por lá uns viajantes desavisados, como eu ou um casal de ingleses que conheci. Depois de cinco dias de trekking pesado no W, eles escolheram este hotel para o merecido descanso. Mesmo não tendo nada a ver com o público local, a vista, o conforto, as garrafas de vinho compartilhadas diante dos blocos de gelo e as caminhadas nos arredores valeram as 2 noites que ficamos ali.

 

Cascata Rio Serrano

A Cordilheira Paine é onipresente em qualquer ponto do parque. Mas em nenhum momento se padece de tédio. De cada novo ângulo, as torres mostram cores e formatos diversos. É tudo tão mágico e majestoso que qualquer um vive um dia de turista japonês por ali, importunando o silêncio com disparos seguidos dos obturadores.

 

Lago Pehoe

Além das trilhas do W, o parque tem mais de uma dezena de outras trilhas, de baixa, média e alta dificuldade. Todas sinalizadas, podem ser percorridas sem auxílio de guias, a não ser em dias de chuva, quando os guardas florestais desaconselham seguir sozinho por algumas delas, mais empinadas e escorregadias.

 

Companheiros de caminhada

Companheiros de jornada

Nos três dias em que estive no parque, vive uma das mais agradáveis sensações de solidão da minha vida. O prazer de estar, algumas vezes, rodeada apenas por quilômetros de natureza nos dá a verdadeira dimensão de nosso tamanho neste mundo e da inutilidade de tantas bobagens com que nos preocupamos. Mas também senti uma imensa tristeza por ver do que nosso desrespeito com a natureza é capaz: as árvores retorcidas e negras que sobreviveram do último incêndio do parque, em dezembro passado. E tudo porque um turista preguiçoso não quis carregar seu próprio lixo (é obrigatório levar embora o que se carrega no trekking) e resolveu queimá-lo.

 

A "natureza" criada pelo homem

Serviço

Always Glacier – ônibus e excursões para Torres del Paine a partir de El Calafate – [email protected]

Hotel Lago Greywww.lagogrey.cl (melhor reservar pelo Booking, que tem preços mais em conta)

 

Margaridas da Patagônia

 

Ponte pênsil sobre o rio Paine: só 2 pessoas de cada vez

 

Vale do Rio Serrano

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Perito Moreno, o astro rei de El Calafate

Perito Moreno, o astro rei de El Calafate

Estrela de 10 entre 10 reportagens sobre a Patagônia,  o glaciar Perito Moreno vale, por si só, a viagem a El Calafate, cidade turística no coração da província argentina de Santa Cruz. Me sinto meio até meio intimidada em falar sobre um astro como Perito Moreno.  Me parece que as imagens contam tudo o que se precisa saber sobre aquele que é considerado o mais alto glaciar do continente – uma “testa” de até 60 metros – e que volta e meia oferece shows espetaculares  quando parte do gelo se rompe e cai com estrondo nas águas do Lago Argentino, onde ele se encontra.

Perito Moreno tem um imã que captura os olhos da gente e imobiliza o corpo. Fica-se muito tempo parado diante dele, olhar fixo no gelo. De vez em quando, uma mão sai da letargia, aperta o obturador da câmera fotográfica  e volta a se congelar. Parece até um gesto orquestrado que se repete aqui e ali, mirando um ou outro ângulo glaciar. E em todos os olhos, uma expressão de “êxtase”, um deslumbramento sem fim por a natureza ser tão grandiosa e bela.

 

Há três formas de se admirar o enorme bloco de gelo azul e branco: do alto das passarelas de madeira construídas em terra firme a poucos metros de uma de suas laterais; desde os barcos que podem chegar a poucos metros da parede de gelo; e caminhando sobre ele. Aproveitei as três, passando um dia inteiro vendo e sentindo o glaciar de todas as formas possíveis.

 

Ir até a passarela é algo que qualquer um pode fazer por meios próprios – ônibus ou carro. Já o passeio de barco e o trekking no gelo são exclusividade de uma empresa de El Calafate – Hielo y Aventura. Muitas empresas podem vender os passeios, mas esta é quem detém o monopólio de operar na parte do Parque Nacional dos Glaciares onde está Perito Moreno.

 

Há dois tipos de trekkings possíveis em Perito Moreno: mini-trekking, com 45 minutos de caminhada; e o big ice, de 3 a 4 horas sobre o gelo.  Infelizmente, eles classificam a sua possibilidade de fazer o trekking pela idade – e não pela condição física. Assim, o mini-trekking aceita pessoas de até 65 anos, enquanto só podem participar do big ice aqueles que têm menos de 45 anos. Ou seja: fui eliminada do big ice pela idade. No início injusto, mas a empresa foi irredutível.

 

Depois de ter feito o mini-trekking, cheguei à conclusão de que estava de bom tamanho. Não chega a ser fácil caminhar em uma superfície totalmente irregular, às vezes se equilibrando sobre um estreito muro a separar dois mini penhascos de gelo ou no entorno de uma caverna. Como a paisagem varia pouco, depois de 45 minutos me pareceu que já não havia mais o que fazer mesmo.

 

Para garantir que não se escorregue, os guias colocam uns grampos enormes embaixo da bota de trekking e dão uma mini-aula sobre como caminhar no gelo: pernas abertas para não enganchar os grampos de um pé nos do outro e cair;  levantar o joelho para garantir passadas firmes; manter distância da pessoa que está à frente: e caminhar sempre em fila indiana atrás do guia. Um detalhe importante para os turistas-fotógrafos: NÃO dá para caminhar e fotografar ao mesmo tempo nem parar a qualquer momento para isso, pois a fila toda pode rolar gelo abaixo. Fotos, só quando o grupo todo pára.

Além do prazer da aventura, o esforço final é recompensado no final da caminhada com uma dose de uísque, servida com gelo retirado do glaciar ali na hora.

  

El Calafate

Cidade turística ao extremo, El Calafate é  repleta de restaurantes, cafés e hosterias de todos os níveis.  Dali se vai a Torres del Paine e a El Chatén por terra, o que faz com que muita gente use a vila como ponto de apoio para todos os passeios naquela parte da Patagônia. Todos os serviços estão disponíveis ao longo da avenida principal: lojas de roupas de frio e neve, agências de turismo, bancos e caixas eletrônicos, restaurantes de todos os tipos. E tudo fica aberto até tarde, visto que as pessoas circulam mesmo à noite, na volta dos trekkings ou passeios nas redondezas.

 

Na zona urbana mesmo só um passeio: a Laguna Ninez e uma das margens do Lago Argentino. A Laguna – na verdade são 2, interligadas – é um criadouro natural de pássaros e de algumas espécimes de plantas típicas da Patagônia. Dá para passar um bom par de horas ali observando os pássaros mergulharem na água ou fazerem voos curtos, desde bancos instalados em pontos estratégicos da trilha, que é plana e sem dificuldades. Uma pequena porteira permite a passagem da laguna para o Lago Argentino, onde é possível descansar deitado nas areias finas, aquecendo um pouquinho o corpo ao sol.

 

Serviço

Hielo & Aventurawww.hieloyaventura.com

Mini trekking para Perito Moreno: 540 pesos argentinos

Laguna Ninez – A cerca de 1 km da avenida principal de El Calafate, fica aberta das 10 às 18h. Leve água e algo para comer, pois não há nada ali.

 

 

 

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Um pit stop no fim do mundo: Ushuaia

Um pit stop no fim do mundo: Ushuaia

O fim do mundo é frio, nublado, amanhece cedo e escurece tarde sobre as montanhas cobertas de neve quase o ano todo e o oceano é de um cinza infinito. Por lá encontrei pessoas muito acolhedoras, que convivem harmoniosamente com pinguins, leões marinhos,bosques de árvores frondosas e lagos de águas calmas e geladas.

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Ushuaia com as montanhas Martial ao fundo

Depois de um voo de três horas desde Buenos Aires, do alto a visão do porto, do Canal de Beagle e das montanhas Martial com o pico coberto de neve impressionam. A sensação de estar chegando à cidade mais austral da América do Sul dá à paisagem um encanto a mais, apesar da ausência de sol nos dois dias em que lá fiquei. Mas o cinza do céu e do mar e a chuva não chegaram a oprimir nem a atrapalhar a viagem. Só as fotos se ressentiram bastante da falta de luz. Até porque viajo com uma Sony Cyber-Shot e um iphone que não compensam muito bem a falta de sol. Pensei até em colocar um filtro PB no Instagran para criar uma bossa e driblar esta, digamos, falha da natureza.

Ushuaia, vista da parte mais alta da zona urbana

No inverno, Ushuaia é um importante e congestionado balneário de ski, repleto de brasileiros e latino-americanos endinheirados. No verão, o turismo gira em torno dos passeios de catamarã no Canal de Beagle para ver o farol do fim do mundo, os pinguins e leões marinhos. O glaciar mais importante da região é o Martial, mas não se compara em exuberância a Perito Moreno e ao Grey, por exemplo.

Happy feet!

Preferido das famílias, dos grupos e dos turistas de terceira idade, o passeio de barco é um tour bastante convencional, um legítimo “programa turístico, com o guia recitando as falas costumeiras, todo mundo tirando fotos o tempo todo e um carimbo no passaporte para quem quiser confirmar que esteve no fim do mundo. Vale para quem nunca viu pinguim nem leão marinho e para poder dizer que viu o farol do fim do mundo, que na verdade não é o farol que inspirou The Lighthouse of the End of the world, de Julio Verne. O verdadeiro farol do fim do mundo está em Staten Island, 350 km a leste de Ushuaia.

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Abstraindo o lado essencialmente turístico do passeio, adorei a viagem de barco e a paisagem inóspita, mesmo sob uma temperatura de 3 graus centígrados e muito vento. Em vez de ficar dentro do barco, passei a maior parte da viagem na plataforma de cima do catamarã, ao lado da cabine de comando. Dali a gente tem uma visão quase de 360 graus do canal e pode ver antecipadamente as baleias que voltam e meia surgem no meio do oceano para brincar diante dos nossos olhos. Em alguns momentos, três baleias vinham juntas se refestelar diante do barco. Valeram muitos mais do que as 3 horas de viagem e os R$ 150,00 desembolsados.

Dança das baleias

Parque Nacional da Terra do Fogo, a estrela de Ushuaia.

Para mim, porém, a grande atração de Ushuaia foi o Parque Nacional da Terra do Fogo, a 30 minutos de van do centro da cidade e que margeia o Canal de Beagle. Foi ali que fiz o primeiro trekking dos últimos 20 anos – o primeiro trekking verdadeiro da minha vida. Com muitos lagos e a vegetação verde-musgo típica da Terra do Fogo, o parque é bem menos frequentado do que os tours do Canal de Beagle. São três trilhas – sendas – de dificuldade média, uma fácil e uma difícil, todas por meio da mata verde-musgo típica da Terra do Fogo. Por serem pouco frequentadas, algumas trilhas dão a sensação de se estar completamente só no fim do mundo. É uma sensação maravilhosa para quem gosta de natureza e odeia multidões, principalmente de turistas. O parque também tem áreas de campings (poucas e bem camufladas na mata) e um refúgio para mochileiros que queiram pernoitar ali. Informações sobre isso estão no site oficial de turismo da cidade – Ushuaia Turismo.

Senda Costera

Fiz as duas sendas de dificuldades média – uma de 2h30 ida e volta, rodeando o lago Roca e que vai até a fronteira da Argentina com o Chile, e a outra de 3h, chamada Senda Costera, toda margeando o Canal de Beagle e considerada a mais bonita do parque. As duas são totalmente seguras para uma viajante solitária, bem sinalizadas, com estacas laranja a intervalos regulares e nos pontos em que seria mais difícil identificar o caminho. A Senda Costeira ofereceu alguns pontos mais difíceis de subida e descida, principalmente porque chovia bastante, tinha muito barro e as rochas estavam escorregadias. Em compensação, passar três horas solitária no meio daquela mata – encontrei apenas 4 pessoas durante todo o percurso -, descendo às vezes até a beira do mar e voltando a me embrenhar na trilha funcionou como uma descarga simultânea de adrenalina e serotonina – excitação e êxtase.

Senda Lago Roca

Senda Costera

Senda Lago Roca

Atrações light – pero no mucho!

Caminhar pela cidade de Ushuaia não chega a ser um passeio light todo o tempo. Por estar escorada na cadeia de montanhas Martial, Ushuaia é um sobe e desce constante de ladeiras e escadarias. Cada avenida paralela ao porto forma um pequeno platô. Daí dá para imaginar que sempre vai se subir ou descer para chegar à seguinte. A hosteria em que me hospedei, por exemplo, ficava na quinta ou sexta paralela ao porto. Me pareceu pertinho quando vi no mapa, mas na hora de subir o morro, à noite, já viu né?

O esforço de percorrer algumas partes da vila, no entanto, compensa. Com uma arquitetura típica de zonas frias latino-americanas e ainda preservando casas de madeira e telhado quase vertical do início do século passado, Ushuaia merece um passeio despreocupado.

E para aqueles que preferem turismo de esforço zero, a cidade é ponto de partido para a forma de visitar o parque: da janelinha do Trem do Fim do Mundo – se você conseguir sentar na janelinha, claro. Trata-se de um passeio turístico que aproveita a linha de ferro que funcionava quando Ushuaia não passava de um presídio.

Ushuaia também abriga três museus – Fim do Mundo, Marinha e Yámana. Além da história da cidade, de navegações e naufrágios e animais empalhados, também encontra-se ali um mínimo da cultura dos Yámanas, os nativos fueguinos que viviam ali antes da chegada dos europeus, há 500 anos.

"Centro" de Ushuaia

Cidade cara, comida e bebida boa!

Parte de um conjunto de ilhas ao Sul do Estreito de Magalhães, Ushuaia é longe de tudo e, por isso, não dá para ser chamada de uma cidade barata – a Patagônia, aliás, é cara! Mas a rua principal oferece tudo o que o turista pode precisar em uma cidade deste porte, de lojas (tem todas as roupas para trekking e ski que se precisar) a serviços básicos e bons restaurantes. A maior parte, claro, é do tipo “turístico, que expõe na vitrine os cordeiros espetados em volta do fogo da tradicional parrilla argentina. Não faltam, no entanto, pubs, casas de chocolates, cafés etc. Basta ir andando pela avenida principal, olhar na vitrine e parar onde parecer mais interessante. Vai depender do gosto de cada um.

O melhor dos que frequentei, por recomendação do meu amigo Sérgio Sampaio, foi um restaurante chileno de frutos do mar – Chiko. Instalado em uma rua perpendicular (Av. Antártica Argentina) à principal, quase no fim da vila, junto ao Museu do Fim do Mundo, Chiko fica em cima de uma loja de Xerox e não merece um tostão furado quando se vê de fora. Mas como as aparências sempre enganam, serve uma comida realmente muito boa – pescada negra, frutos do mar, truta etc. -, regada às duas iguarias líquidas da Terra do Fogo: a cerveja lager Patagônia e o Vino del Fin del Mundo (malbec ou cabernet).

A lager Patagônia

Cordeiro e Vino del Fin del Mundo

Não vou me estender aqui nos pontos e programas turísticos de Ushuaia que eu optei por não incluir no meu roteiro. Informações completas sobre Ushuaia podem ser encontradas no site oficlal de turismo da cidade: Turismo Ushsuaia

Serviços

Passeios de catamarã pelo Canal De Beagle - todas as empresas estão instaladas uma ao lado da outra no porto. Basta chegar e escolher uma delas. São basicamente 3 passeios: Canal de Beagle com farol do fim do mundo; o anterior + ilhas de pinguins; o anterior + parada em uma estância e volta de ônibus. As pousadas também vendem os passeios pelos mesmos preços cobrados diretamente.

Transporte para o parque – vans saem ao lado da rodoviária, de hora em hora e retornam na mesma frequência. Durante a semana, a saída é só nas horas pares e o retorno só nas ímpares. Mas é sempre bom checar, pois percebi que nem sempre seguem o que está escrito. Paga-se 60 pesos ida e volta, independente do tempo de permanência no parque.

O que levar na bagagem: Calça e casaco impermeável com capuz e que barrem o vento (essencial), gorro, luva, malhas e segunda pele, meia de lã que não transpire e bota de trekking impermeável para as caminhadas. Se carregar mochila, leve também a respectiva capa de chuva e um saco para carregar o lixo (nada pode ser abandonado nos parques). Protetor solar (eu não precisei) e protetor de lábios.

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Fim do Mundo, eu fui!

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Parque Nacional da Terra do Fogo

Parque Nacional da Terra do Fogo

Parque Nacional da Terra do Fogo

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Patagônia: um destino, muitas viagens.

Patagônia: um destino, muitas viagens.

Quando se pensa em Patagônia, logo vêm à cabeça os glaciares gigantes, Darwin e suas pesquisas, muito frio, navios ao sabor do vento na costa do Chile ou o farol do fim do mundo, em Ushuaia, a cidade mais austral do continente. Mas a simples decisão de ir à Patagônia abre um mundo surpreendente de paisagens, cores, vegetação e cidades até então desconhecidas, mesmo para o mais informado dos viajantes. E abre também muitas possibilidades de viagens em uma só.

 

Nas minhas pesquisas, conversas com amigos (obrigada Gilmar Santos, Sérgio Sampaio, Cláudia Costa e Felipe Fernandes) e depois de 13 dias percorrendo uma parte da Patagônia, concluí que há pelo menos três roteiros a seguir na hora de organizar uma viagem para lá durante o verão do hemisfério Sul:

  • O roteiro light das famílias e grupos, mais afeitos a ver e tirar fotos do que propriamente a experimentar novas aventuras. Aí estão os passeios de barco para ver os glaciares ou o farol do fim do mundo, os chamados “park tour” que são viagens de ônibus ou vans pelos principais pontos turísticos dos parques e as vistas dos glaciares; as visitas e compras em cidades praticamente voltadas para o turismo, como El Calafate, na Argentina, ou Puerto Natales, no chile.
O Farol do Fim do Mundo, no Canal Beagle, em Ushuaia
  • O circuito que chamo de misto, de quem não abre mão de um tour de barco ou de ter uma vista geral da diversidade de paisagens, mas também quer se aventurar por trekkings de nível de baixa ou média dificuldade, como trilhas de 3 a 4 horas no Parque Nacional da Terra do Fogo, em Ushuaia, de 1 uma hora para ver uma cascata em El Chaltén ou mesmo caminhar 45 minutos em cima do Glaciar Perito Moreno, em El Calafate, o mais famoso de todos eles. Uma viagem de barco entre Puerto Mont e Punta Arenas (Chile) e/ou Ushuaia (Argentina) também pode fazer parte deste circuito.
  • O roteiro hard é para quem vai completar o famoso circuito W de Torres del Paine, no Chile. São cerca de seis dias de trekking, dormindo cada noite em um refúgio ou acampamentos diferente no alto da cordilheira, subindo e descendo rochas levando nas costas uma mochila carregada, inclusive com comida. Também dá para incluir aí a subida dos 750 metros de altitude da Laguna de Los Tres, ponto mais alto a que se chega no Mont Fitz Roy, em El Chaltén. São 8 horas de ida e volta, sujeito a chuva e, o pior, vento e neve no alto do cerro.

Perito Moreno, o mais famoso e surpreendente dos glaciares da Patagônia.

Definido o tipo de roteiro, é preciso decidir qual Patagônia pretendemos visitar: argentina, chilena ou um pouco de cada uma? Levando em conta que falamos de uma área de mais de 1 milhão de quilômetros quadrados, esta é uma decisão importante, que impacta no tempo dia viagem e no bolso do viajante. Afinal, do lado argentino a Patagônia inclui destinos tão distantes um do outro como Bariloche, Rio Galegos, El Calafate/El Chatén e Ushuaia, para citar apenas as cidades que estão no interior, mais próximo da cordilheira e onde se concentram os principais roteiros turísticos.

Na parte chilena, estamos diante de uma imensidão de montanhas e fiordes gelados que vão de Valdívia a Punta Arenas, passando por Osorno, Puerto Mont, Puerto Varas, Puerto Alsen e Puerto Natales, onde se encontro o surpreendente parque de Torres del Paine.

A cordilheira Torres del Paine, um desafio de 6 dias de trakking

A minha viagem

Como não tenho treino de trekking, optei por um roteiro misto, embora no final tenha vencido o medo e subido o Fitz Roy, a maior aventura da minha vida. Pelo tempo que dispunha – 13 dias – e pela vontade de ter um panorama geral da Patagônia, optei por uma parte da Argentina – El Chaltén, El Calafate e Ushuaia – com Torres del Paine, no Chile. Assim, conseguiria percorrer os destinos mais famosos e ainda experimentar a delícia de fazer trekking sozinha no fim do mundo, no meio do nada.

E nestas condições também achei que o melhor seria percorrer as grandes distâncias de avião – Buenos Aires-Ushuaia e Ushuaia-El Calafate – e as mais curtas – El Calafate-Torres del Paine e El Calafate-El Chaltén – de ônibus. Há também a possibilidade de fazer as distâncias mais curtas ou mesmo os vários roteiros dentro de cada cidade de carro mesmo em um período curto de viagem como esse.

Cerro Fitz Roy, a estrela de El Chaltén

Também por estar só, o que encareceria o aluguel e me levaria a dirigir horas por estradas bastante desertas, preferi não alugar o carro. Depois, percebi que, fora o custo, as estradas eram bastante tranquilas para uma mulher só. Mas só senti mesmo a falta do carro em Torres del Paine, onde fiquei sem mobilidade porque o transporte dentro do parque é meio precário e tive de arcar com transfers. De carro teria aproveitado um pouco mais.

No balanço geral, foi uma viagem fantástica, surpreendente e com muitos desafios vencidos, como trekkings longos sozinha e a subida do Fitz Roy.

A partir do próximo post, vou contar um pouco do que vivi nestes 13 dias, dar dicas de hotéis e passeios e contar o que há de melhor em cada lugar.

 

Perito Moreno, eu fui!

 

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Morro de São Paulo. Morro de saudades!

Em Salvador para uma reunião de trabalho, aproveitei o último final de semana e, fugindo da greve da PM, fui resolver uma falha grave na minha vida de nômade/viajante/turista: conhecer Morro de São Paulo. Nunca entendi porque não tinha ido lá antes – afinal já morei dois anos em Salvador – e sempre ouvi dizer que agora não adiantava mais, pois a ilha tinha acabado sob a horda de turistas tupiniquins e gringos. Ignorando todos os conselhos, resolvi passar 2 dias lá, pelo menos para navegar um pouquinho em mar aberto, ver a paisagem, dar uns mergulhos e cortar os pulsos porque não consegui conhecer o lugar quando era “exclusivo” e “deserto” .

 

Morro de São Paulo não acabou: ainda há praias semi-desertas e mar transparente

Pois Morro de São Paulo fez valer um batido ditado: se conselho fosse bom, ninguém dava, vendia. A ilha é linda, a água transparente e morna, as piscinas naturais um bálsamo para o corpo. Ainda é possível caminhar por locais semi-desertos e ouvir apenas o barulho do mar deitado embaixo de sombras refrescantes. Sim, estou mesmo falando de Morro de São Paulo, daquele que foi exclusivo na década de 80 e depois “se perdeu” sob a invasão do turismo gringo na década de 90, seguido pelo turismo popular dos anos 2000.

 

Claro que as praias mais próximas da vila – Primeira, Segunda e Terceira praias – estão lotadas de mesas, cadeiras, guarda-sóis e muitos restaurantes. Tem gente demais dentro e fora d’água para o meu gosto (mas nada que se compare à Zona Sul do Rio nos bons dias de verão).  Boa parte dos frequentadores, inclusive dezenas de argentinos, não têm muito cuidado com seus dejetos, principalmente as pontas de cigarro. Mas nada que chegue a comprometer o bem-estar, como acontece em Boa Viagem, no Recife, por exemplo. A poluição visual costumeira da Bahia e alguns exageros no som incomodam um pouco também.

 

Segunda praia: turismo popular enche o mar e as barracas.

 

Mas basta um pulo para se ver livre dos turistas ruidosos e das barracas. Uma caminhada pela Quarta Praia – 4 km praticamente desertos – ou pelas praias do lado interno da ilha, como a Gamboa, fazem valer a viagem.  E por ali há hotéis e pousadas para todos os bolsos e gostos – de refúgios desertos para lua de mel a hostels próximos ao agito noturno da vila.

 

Quarta praia: 4 km de areias pouco frequentadas e pousadas charmosas para descansar.

Praia da Gamboa: rio e mar juntos.

O clima em toda a ilha é de camaradagem, ainda uma coisa meio hippie em que todos acabam trocando informações, batem papo com a mesa ao lado no bar. E tudo permeado por aquela hospitalidade ruidosa que só a Bahia é capaz de oferecer. A vila tem aquele clima de cidade do interior em dia de quermesse. Todo mundo sentado na praça ou tomando sorvete, banquinhas de caipifruta (uma delícia) por toda parte e até um “conjunto musical” familiar tocando uns sambinhas (nada de axé, ainda bem).

 

Na vila, uma praça de cidade do interior

 

Música em família

 

Os preços em Morro de São Paulo não são baratos para quem tem o hábito de comer bem – e também não chega a se comer muito bem, mesmo os pratos típicos da Bahia. Mas os estudantes que lotam os bares das três primeiras praias não têm do que se queixar.

 

Fiquei hospedada na Pousada do Joe, na vila, pois ia passar pouco mais de 24 horas e queria ter mais mobilidade. Cama de casal confortável, banho quente, ar condicionado, uma pequena vista para o mar, café da manhã farto. E eu era a única hóspede do lugar.  Boa parte das pousadas também tinha muito quarto vago. Estranho para um mês de fevereiro. Atribuo isso ao preço das pousadas – de R$ 100,00 para cima o quarto individual e de R$ 140,00 em diante para o casal.  Nos resorts os preços beiram R$ 1 mil a diária.

 

Vista da varanda da Pousada do Joe

Agora que já dei a volta na ilha caminhando, me considero uma doutora em Morro de São Paulo. Na próxima vez, já decidi: vou me instalar numa das pousadas da quarta praia e ficar dias e dias me refestelando ao sol. Sem nem ligar por não estar num lugar “exclusivo” e ainda não descoberto. E vai ser em breve, pois já estou morrendo de saudades daquele sol e daquele mar.

 

Serviço

Como chegar:

De Salvador, via catamarã, são 2 horas de viagem, com saídas do Terminal Marítimo, em frente ao Mercado Modelo, às 9, 12h30 e 14 horas diariamente. Preço: R$ 80,00. Reservas pela internet via Rota Tropical ou Biotur

Do aeroporto de Salvador saem 8 voos diários na época de temporada (novembro/março), operados pelas empresas de táxi aéreo Addey e Aerostar. As reservas podem ser feitas pelo site da Rota Tropica e as passagens custam a partir de R$ 250,00

Também é possível ir de carro ou van até Valença e de lá e lpegar lanchas rápidas que chegam em Morro de São Paulo em 10 minutos.

Reserva de pousadas

Além dos tradicionais Booking.com e Hoteis.com, o site Morro.Travel manda emails coletivos para as pousadas da praia escolhida, que retornam com os preços e disponibilidade de quarto nas datas informadas.

 

A caipifruta do Joe

 

Igreja da Gamboa

 

Vista da Praia do Porto De Cima

 

Porto de Morro de São Paulo visto desde o catamarã

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Renascendo das cinzas.

Rodinhas ficou fora do ar por quase dois meses.  E não por preguiça ou falta de assunto. O provedor Locaweb simplesmente tirou o blog do ar (e não foi falta de pagamento) e depois de muita briga conseguimos recuperar parte do conteúdo. Isto é, recuperei os textos, mas não as imagens dos posts.

Agora vou ter de recolocar todas as imagens, uma por uma, novamente. Já consegui recarregar os aplicativos do Flickr e aos poucos vou refazer o restante do layout original.

Mas independente da irresponsabilidade e incompetência da Locaweb (de onde já tirei o blog), minhas Rodinhas não param. Volto a alimentar a blog esta semana, com novas viagens e muitas dicas.

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